Quarta-feira, 26 de Outubro de 2005

NO CALOR DA NOITE (Sonho IV)

poesia.jpg

 

Que se lixe o romance. Por hoje basta!

 

Foi com este desabafo proferido em voz alta, apenas para mim, que desliguei o computador após longas hora de trabalho, pouco menos que improfícuo, na tentativa de acrescentar mais algumas páginas ao romance que há muito estou a tentar terminar.

 

O relógio indicava que as 2 horas da madrugada já há muito haviam sido ultrapassadas. O corpo cansado, e a cabeça esvaída reclamavam cama, mas o calor intenso que ainda se fazia sentir convidava a desfrutar de alguns momentos reclinado na confortável cadeira de verga que tinha na varanda.

 

Assim fiz. Recostei-me preguiçosamente no cadeirão, fechei os olhos, e deixei-me acariciar pela brisa morna e suave, que mansamente me ia envolvendo o corpo e anestesiando a mente. Respirei fundo, e senti-me bem.

 

O céu, estrelado, estava iluminado pela luz fascinante de um luar prateado como só é possível admirar numa noite de lua cheia, em pleno mês de Agosto. O aroma inebriante das flores do jardim, intensificado pelo ar quente da noite, entra-me pelas narinas e quase que me anestesia. È o corpo que se relaxa, e se abandona lascivamente, afundando-se cadeira abaixo, e são os sentidos que se estimulam e geram um parafernália de desejos mais ou menos inconfessáveis.

 

Lembrei-me então que, naquele momento, estava deitada na minha cama, uma mulher escultural e doce, que faz questão de me fazer companhia sempre que sonha que posso estar em crise de inspiração. Pega na mala e instala-se, de armas e bagagens, na minha casa sem aviso prévio, e sem admitir protestos. O mais interessante disto tudo é que eu cada vez estou a gostar mais dessas invasões da minha privacidade.

 

Só o facto de saber que tinha ali, bem perto de mim, essa mulher esplêndida, e esse ser humano admirável, transmitia-me uma agradável sensação de tranquilidade e confiança que eu nunca tivera o privilégio de sentir na minha vida, antes de a conhecer. Sentia-me um outro homem, mais ousado e mais atrevido, capaz de enfrentar o mundo, e realizar coisas tão complicadas como, por exemplo, escrever um romance.

 

Ao pensar nisso senti-me bem…muito bem. Abandonei-me ao torpor provocado pela brisa quente, e pelo brilho prateado da lua, que parecia sorrir para mim com bonomia. Deixei-me afundar, lascivamente, pelo cadeirão abaixo, retribui o sorriso e deixei-me adormecer…

 

… Um sopro um pouco mais forte da brisa da noite ainda cálida acordou-me. Ia já madrugada adentro. Levantei-me preguiçosamente, e meio ensonado cambaleei até ao quarto onde me esperava aquele anjo, que transformara a minha vida quase num paraíso. A janela escancarada deixava que o luar banhasse todo o quarto com a sua luz mansa e brilhante. Deitada em cima da cama, nua como gostava, a Raquel, era esse o seu nome, dormia com o ar sereno que só os justos conseguem deixar transparecer. A sua pele já de si muito branca resplandecia por sobre os lençóis, deixando bem à vista aquele triangulo farto e negro que tanto me seduzia e que eu gostava de acariciar com deleite. Aproximei-me sorrateiramente e depositei levemente um beijo naquela mata cerrada. Senti as suas mãos pousarem mansamente na minha cabeça e, com enorme delicadeza, fazerem uma ligeira pressão para baixo. Senti-me nas nuvens…

 

…

 

O ladrar furioso de um cão, nas imediações da minha casa, fez-me acordar sobressaltado. Olhei o relógio. Era tarde…muito tarde já. Decidi então que eram mais que horas de ir para a cama. Foi o que fiz.

 

Ao deitar-me, com cuidado evitando fazer barulho, ouvi um a voz trovejante:

 

- Isto é que são horas de vir para a cama? Sempre a porcaria do romance. Grande parvo! Já tens idade para ter juízo.

 

Ignorei os impropérios e deitei-me. Uma pergunta no entanto martelava a minha cabeça: Que mal fiz eu para merecer esta mulher?

 

O sonho desvanecera-se. Tinha de novo pousado na terra. A realidade era esta… Raios partam!

 

@utor: Pinóquio

</blockquote>
publicado por igara às 13:42
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8 comentários:
De Anónimo a 27 de Outubro de 2005 às 23:49
Mil vezes parabens meu querido Pinoquio! Cada vez é mais aliciante a escrita, mais doces e belas as imagens, e sonho, sonho...Este é de mestre. Numa palavra ADOREI, está simplesmente MAGNIFICO! Este romance, peço-te, publica-o.
Beijo grande e docemagnolia
</a>
(mailto:flordemagnolia@sapo.pt)


De Anónimo a 27 de Outubro de 2005 às 10:41
Pinochio adorei ler o teu texto,fizeste-me lembrar África com essa salada de cheiros, brisas, luar,corpos quentes, suados e sensuais. Se me é permitido, posso dar-te um conselho, arranja uma almofada para substituir "esse raio de mulher".Mao
(http://RIMASPOEMASEBONECOS.BLOGS.SAPO.PT)
(mailto:MAO_SU_LEU@sapo.pt)


De Anónimo a 27 de Outubro de 2005 às 10:26

Hoje pela primeira vez visitei o teu blog...adorei
Escreves com alma e sentimento, as tuas palavras tocam...
A leitura tambem é o meu refugio
Nunca deixes a escrita, continua...
gostava de ler o teu romance.
vou voltar a ler-te

BeijinhosBerta
</a>
(mailto:arcoiris.2005@hotmail.com)


De Anónimo a 26 de Outubro de 2005 às 18:10
Eh lá de cada vez q por aqui passo isto tem um sonho mais bonito!!!! Sem desmerito para os anteriores, claro! Adorei Adorei Adorei. E, confesso, ri com a ultima parte! hihihiSoninha
(http://www.supergoldenworld3.blogs.sapo.pt)
(mailto:costasoninha@iol.pt)


De Anónimo a 26 de Outubro de 2005 às 17:41
Ola pinóquio,

estive a ler atentamente o teu texto. Uma surpresa agradável. Descrições encantadoras, um texto «veludo», cheio de tons, cheiros...muito bem.
Com um final com um toque muito divertido.
Gostei bastante :)

Relativamente ao comentário que fizeste ao meu,tenho-te a dizer que teve piada o comentário do guarda-chuva.
Outra pessoa há pouco tempo leu aquele texto e disse-me, «aquele texto és tu, até o guarda-chuva lá está, a tua segurança, o facto de apesar de ires nos sonhos não gostas de tirares os pés do chão» . :)
pluma(princesavirtual)
(http://www.princesavirtual.blogs.sapo.pt)
(mailto:plumacaprichosa@hotmail.com)


De Anónimo a 26 de Outubro de 2005 às 14:54
Muito lindo o texto, muito intenso...muito mas muito belo...adorei...depois também quero um livro :-) jinho jenny55
</a>
(mailto:jenny55@sapo.pt)


De Anónimo a 26 de Outubro de 2005 às 14:23
Tou parva para a minha vida! Muito, bem, Pinochio. Tal como a minha prima Igara, tb quero livro autografado e tudo! Beijosusana
(http://bloguiando.blogs.sapo.pt)
(mailto:susana-silva3@sapo.pt)


De Anónimo a 26 de Outubro de 2005 às 14:03
Bemmmmmm, confesso que o teu texto me encheu as medidas. Lindo demais, pela intensidade, pela beleza, pelo próprio sonho...Adorei mesmo, foi com muito prazer e muito gosto que te postei aqui no nosso cantinho. Quero que saibas...que quando editares o romance, quero ser das primeiras a ler, em livro autografado e tudo!!!!! Beijo, na testa...e um xi coração apertadinho! ::)))igara
(http://www.bloguiando.blogs.sapo.pt)
(mailto:igara@sapo.pt)


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