Segunda-feira, 12 de Setembro de 2005

O meu primeiro grande Amor

Encontrei o meu primeiro grande amor, não que eu ao longo da minha vida tenha tidos muitos grandes amores, mas este foi sem dúvida o meu primeiro grande amor. Estava eu ás compras, algo que eu não gosto muito de fazer, mas que naquele dia eu tinha decidido que havia de acontecer. Parei numa montra, e senti o reflexo de alguém que insistentemente olhava para mim. Nunca me dei bem com olhares insistentes, e resolvi sair dali, fingindo que não dava conta da insistência do olhar. Ao iniciar o meu trajecto, ouvi uma voz que me disse: “ Então Índia, já não me conheces?”. O meu coração bateu descompassado, apenas 3 pessoas me haviam chamado assim. Foi então que me virei, e dei de caras com o João Mário. Ele sorria com o mesmo sorriso franco e aberto de quando tínhamos 13 anos. Ele estava muito diferente, mas o sorriso era o mesmo de sempre. Corri para ele e dei-lhe um abraço, igual aos abraços que demos anos seguidos. Já não nos víamos há 20 anos, e no entanto parecia que tinha deixado de o ver ontem. Falámos das nossas vidas, dos nossos trajectos. A vida foi cruel demais com o “meu” João. Ela havia-lhe roubado um filho com apenas 7 anos. O casamento dele, já tinha terminado antes da morte do filho. Ele dedicava-se ao trabalho e á Nizé. Nizé era a mãe do João. Uma das mulheres mais lindas com quem alguma vez me cruzei na vida. Em crianças eu e o João tínhamos sido colegas de escola, éramos da mesma turma, éramos os melhores alunos da nossa sala. O João estudava á seria! Eu nem por isso. O João desde sempre soube o que queria ser quando fosse grande, queria ser Engenheiro Civil. Eu brincava com esse desejo, e tentava puxá-lo a toda a hora, para a brincadeira. Nizé, que eu sabia, gostava de mim de verdade, muitas vezes me dizia apontando o dedo na direcção do meu nariz: “ A minina tem qui deixá o meu rapaz istudá!”. Eu ouvia sempre o mesmo recado, e logo de seguida, entre sonoras gargalhadas, respondia-lhe: “Nizé, mesmo que eu tente muito, o João nunca virá comigo!” . Mas Nizé continuava com as recomendações, até que um dia corri para ela, sentei-me no seu colo e disse-lhe, segredando-lhe ao ouvido: ”Nizé, vou contar-te um segredo, mas não digas nada ao João, eu venho cá só para comer os teus bolinhos de côco, e para ouvir as tuas histórias, porque o João...esse é um chato.” Lembro-me que ela se riu até mais não, o certo é que nunca mais me fez recomendações. Agora estávamos ali os dois, trocando confidências de anos, eu sorvia cada palavra sua. Afinal ele sempre se tinha tornado Engenheiro Civil, e estava em Macau a trabalhar. Tirou o curso com médias tão altas que quando saiu da faculdade já tinha propostas de trabalho muito boas. Havia casado, pouco tempo depois e em 1994 tinha sido pai. Em 2000 o destino levara-lhe o filho num acidente de viação. A dor e o sofrimento de João eram visíveis na forma intensa como ele se referia ao menino. Eu não consegui travar as lágrimas que me invadiram, e limitei-me a ouvi-lo. Falámos horas a fio. Quando finalmente chegou a hora de nos despedirmos, não trocámos nem telefones nem moradas. Decidimos que o destino nos voltaria a juntar por acaso, quem sabe, daqui a 20 anos. Quando o João partiu, durante alguns momentos, consegui a voltar a sentir os aromas dos bolinhos da Nizé, consegui ouvir as nossas gargalhadas de crianças. Por momentos, recordei as nossas brincadeiras na praia. Recordei os nossos passeios á beira mar, quando caminhávamos ainda de mãos dadas. Por momentos, consegui reviver sensações, que havia remetido para um compartimento recôndito do meu coração à tanto tempo. João Mário desapareceu do meu angulo de visão, desaparecera por entre as gentes que passavam, mas eu soube, que para sempre, ele ficará guardado no meu peito, sei que nos voltaremos a encontar, quem sabe, daqui a 20 anos.
publicado por igara às 10:28
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