Quinta-feira, 7 de Julho de 2005

Mais uma história hilariante do povo Olhanense

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Aqui fica, para mais um fim de semana repleto de boa-disposição, uma história engraçada, de uma figura muito conhecida em Olhão. Espero que gostem.


Bom fim de semana para todos.


 


Peixe das Sacadas ou peixe das Traineiras?


 


Era o velho Cámujinho… calcurreava as ruas, apregoando o peixe que vendia pelas portas.


A gente que se dedica a este modo de vida vai de madrugada, quando os barcos chegam, para a lota, e compra o peixe que depois transporta em duas canastras enfiadas nos braços; e lá vai pelas ruas, apregoando o que seja: carapau, sardinha, charro do alto… Mas o carapau e a sardinha são as espécies mais apreciadas.


 


Contudo, às vezes, há este problema: os homens que chegam à lota onde o melhor peixe, que é o das traineiras, não chegou e não se sabe se chegará. O que veio foi peixe das sacadas, inferior por ser pescado com engodo, o que lhe altera o sabor e deteriora facilmente. Isto foi o que uma madrugada aconteceu. O nosso Cámujinho não sabe o que fazer.


 


De casa até à lota tinha entrado em duas ou três tabernas, “cainda era cede pra ir prá álota”, onde tinha tomado outros tantos cálices de aguardente. E, com a cabeça toldada, resolveu-se por aquilo que mais uma vez estivera tentado a fazer: ir à igreja e expor o seu problema a um santo. Ele sabia de um que tinha sido pescador; não sabia qual, mas estava seguro de que, uma vez na igreja, bastar-lhe-ia olhar em redor e era logo acertar. Não estava ele habituado, desde que se entendia, a reconhecer e a lidar com gente do mar? Ora essa!... E lá se foi.


 


Chegado à igreja a coisa não foi assim tão fácil. Vestido como a gente do mar, de botas de borracha e com camisola de quadrados, como ele tão bem conhecia, não viu santo nenhum, por mais que olhasse de alto a baixo. Foi quando viu um santo grande.


 


Calculando, na sua lógica, que a possibilidade de ser atendido estava na razão directa do tamanho do santo, optou por esse, e explicou-lhe o seu caso, que era simples de compreender:


 


“- Ê tenhe aqui trezenteze menréize da alzibêra, pra comprar pêxe. O pêxe que tá lá baxe da àlota é pêxe da secada. Sê cá compre o pêxe da secada e despôs aze tráneraze trazerem pêxe, ê cá pêrque o denhêre que empati do pêxe da secada. Se nan compre o pêxe das secadas áspera do pêxe daze tráneraze e aze tráneraze nam apanhem nada, ê cá nam ganhe denhum e tênhe aze minhaze porraze com a ‘nha melher, lá em casa…


 


Demanêraze quê cá pensi vir aqui falar com vomeceia, a pedir o favor pra fazer com que nam venha pêxe denhum daze tráneraze, quê cá vou-me a comprar o pêxe da secada, qué o que tá lá baxe. Vameze a ver o qué que vomeceia faze por mim, quê cá vou-me sempre daze precessõeze. Ê cá vô tranclite…”


 


Isto dito, o nosso homem saiu da igreja e encaminhou-se para a lota, o boné enterrado até aos sobrolhos, e as canastras, vazias, balouçando na curva dos braços na rapidez do passo.


 


Mas o sacristão, que ouvira o monólogo, e que era, ele próprio, pessoa experimentada nos vapores do álcool, achou melhor tirar do altar o santo grande, e colocou, em seu lugar, uma imagem mais pequena, do mesmo santo.


 


Fez o amigo Cámujinho o que combinara: comprou o peixe das sacadas. Contudo, não tinha progredido muito ainda nas ruas que costumava percorrer quando, lá para os lados do Largo da Cacela, ouviu um colega que apregoava peixe das traineiras.


Estava perdido, o nosso homem.


 


Entrou primeiro na taberna do “Caixoteiro”, a beber mais uns copos, e foi depois parar na taberna do “Caleiras”, já perto da igreja. Bebeu mais, deixou debaixo de uma pipa as canastras, e saiu, munido de uma razoira que tirara de uma saca de milho que estava por ali.


 


Chegado à igreja, com a razoira atrás das costas, dirigiu-se para o mesmo altar, e, nas pernas mal seguras, os olhos a teimarem ver, mas a ver tudo turvo, procurava o santo.


 


- “Olᅔ – e a sua mente não queria compreender. Com as mesmas feições e a mesma roupa, e também “com uma criença assentada do brace”, estava agora um santo mais pequeno… E, então, disse:


 


- “Mê menine, e o tê pai? Nam ôveze? E o tê pai? Nam respondeze? Olha: ê a ti nam te bate, cainda eze uma criença… mai sê cá encontre o cabrão do tê pai da rua… Olha – e mostrava-lhe a razoira – olha, parte-lhe os corneze com este pázinhe.”


 


(Algarve, A.(1987) GENTE DE OLHÃO O seu humor, a sua graça… 2ª Edição, Algarve em Foco Editora, Faro)


 

publicado por igara às 19:41
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Quarta-feira, 6 de Julho de 2005

SIMPLESMENTE MULHER

cora_mulher.jpg



 


MULHER!


O princípio de tudo,


A origem da vida,


A companheira,


Amiga, amante, mãe.


 


Mulher com a tua dor


Salvas o Mundo


Doas o teu amor


Amor profundo!


 


E vives, sofres, choras


Derramando lágrimas


De tristeza e alegria


Cantas e encantas


Semeando em teu redor


A harmonia


 


MULHER


Estás sempre onde é preciso


Estás sozinha


Estás sorrindo


Estás a vencer


Sim mulher


Tua coragem, tua força,


Tua dor ao fazer nascer… a VIDA!


 


À tua ousadia e nobreza


Em paz ou sem ela


És o dom maravilhoso


Da natureza.


 


MULHER!


Bendita sejas MULHER


Bendita sejas.


 


Este poema foi escrito por uma enfermeira do piso de Oncologia do Hospital Distrital de Faro e foi dedicado a todas as Mulheres que sofrem ou sofreram de Cancro da mama.


Para todas estas mulheres um enorme beijo de coragem.


 


Eu gostaria de dedicar este poema em particular a uma grande amiga, a Cristina, que sofreu de Cancro da Mama, mas que agora passa por uma fase muito complicada ligada ainda a esta doença.


Para ti, Cristina, que és muito, mas muito especial, um beijo enorme e um abraço de carinho, amizade, conforto, força e muita coragem. Força amiga, toda tu és vida!


 

publicado por igara às 17:31
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Terça-feira, 5 de Julho de 2005

Palavras

livroborboleta.jpg


A Palavra é Sagrada


Se é dita,


Se é tocada,


Falada com intenção!


Pode ser forte a Palavra


E se em vão for usada,


É como adaga espetada,


Lançada com intenção!


Mas a Palavra sentida,


Que é dita,


Que é proferida


Que diz o que vai no peito,


Merece ser Entendida,


Merece ser Comedida,


Merece Sempre Respeito!

publicado por igara às 17:32
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Meu lindo Algarve do céu azul...(continuação)

olhao8.jpg


"- Sôr João, quem é esta gente?


- Esta gente? Esse é o senhor que comprou a casa do senhor João Henrique, na Ilha da Armona. Essa rapariga, a de olhos verdes, é filha dele. As outras são amigas dela.


- Mai iste é gente rica, sôr João...


- Se é gente rica? Esse homem é o dono do Hotel Avis, em Lisboa, um dos hotéis mais caros que há. Olha, para te dar uma ideia: um almoço lá não te custa menos de trezentos escudos! - foi no tempo em que um almoço, em qualquer restaurante, custava trinta e tal escudos.


Isto, para qualquer um de nós, seria concludente. O homem era um tipo rico e dono de um hotel caro onde um almoço custava os olhos da cara, uma fortuna. Mas não é assim para um marítimo de Olhão. O bom do Manelim quedou-se pensativo, os olhos parados e franzida a testa curta, a respirar pela boca como se, de repente, os dois buracos do nariz não fossem suficientes.


Junto ao cais, o grupo estava agora prestes a embarcar, no barco que o Garrana trouxera do fundeadouro. Foi então que o Manelim atingiu o que procurava:


- Sôr João, ê cá, se fosse a comer a esse hotel, ê cá charengava esse gaje. Ê cá assentava-me a uma mesa, batia as palmaze, e conde o criade viesse, ê pedia-lhe canairze fritze. Mai havera de ser desses canairze belgaze, que cantem bem, e que custem trezentes paus cada um. Charengava-o, quêle perdia denhêre cómigue... "


(Algarve, A. (1987) GENTE DE OLHÃO O seu humor, a sua graça, 2ª Edição, Algarve em foco Editora, Faro)

publicado por igara às 10:32
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Sexta-feira, 1 de Julho de 2005

Meu lindo Algarve do céu Azul...

olhao.jpg

Pensei deixar-vos este fim de semana com algo sobre a minha terra. Eu sou de Olhão, uma cidadezita no Algarve. Cidade cubista, dedicada em grande parte à actividade pesqueira. Queria partilhar convosco um texto de António Algarve, um conterrâneo, que escreveu o livro GENTE DE OLHÃO O seu Humor, a sua graça..., que descreve o mais belo que há em Olhão e o que sinto ao viver aqui, juntamente com umas peripécias de gente pacata e humilde que habita (alguns, infelizmente, já nos deixaram) nesta cidade à beira-mar plantada! Espero que gostem, pois se assim fôr, existem muito mais histórias que vos posso contar. Neste texto irão encontrar passagens escritas exactamente como os pescadores falam aqui em Olhão. Por isso leiam exactamente como está escrito.


Canários Fritos


"Eu gosto do campo, às vezes, mas do mar eu gosto sempre.


Gosto do campo em Janeiro, quando bailam no ar as mil promessas da Primavera que se aproxima. Quando a terra, que as chuvas do Inverno revigoraram, se desentranha em vegetação e flores mil, que atapetam o chão e encristam os valados caiados de branco. O céu é de um azul rutilante e o Sol põe vida e laivos de ouro na policromia que nos rodeia. O ar é então tão límpido que faz com que no horizonte o longe pareça perto. O cerro de S. Miguel, que nos dá a impressão de ser já ali, toma tons variados de azul-cinza, cinza-negro, cambiantes de verde e laivos de lilás.


E é nesse cenário quasde quimérico, nesta quadra do ano, que as amendoeiras florescem. E, revestidas de branco, tão brancas e tão puras, é como se as moças do meu Algarve fossem casar no mesmo dia.


Gosto, depois, do campo, do Verão, quando o ar já é morno na manhã que começa, e nas pitas, que em valados separam as terras, a coroarem-se de figos, o Sol faz cintilar as gotas do orvalho. É como se, na noite que passou, o céu tivesse aberto numa chuva de diamantes.


Nas horas de mais calor, sem vivalma que se aviste ou asa de pássaro que rasgue o azul celeste, a vida parece ter parado e o campo lembra uma enorme tela, obra de um pintor gigante que esbanjasse tintas de uma paleta de crai fantasias. De cada cor, por toda a parte, há miríades de matizes, e no espaço não há uma brisa que tremule uma folha, que faça desprender uma pétala ou que movimente os odores que evolam. O ar está saturado desses cheiros que, como da transpiração de corpos, se volatilizam, de árvores e de frutos, das roseiras de armar e das madressilvas que formam arco sobre as portas dos casais. E como que mulheres parideiras, dessas que desfazem em filhos, um agarrado às saias, outro ao peito e já um na barriga, as árvores desfazem-se em frutos. Por toda a parte há perfume, há cor, mais perfuma, mais cor, "... campos de verde alacre, onde zombem as cores..." É o Algarve de João Lúcio:


"Ó meu Algarve impressionista e mole,


Meu lindo preguiçoso adormecido ao sol,


Meu louco sonhador a respirar quimeras"


É assim que eu gosto do campo. Mas do mar eu gosto sempre, todos os dias que compõem o ano, quer nos temporais do Inverno quando ele se encapela e enfurecido investe contra a terra deste povo que o domina, quer ele, mole e preguiçoso, se venha abandonar na praia.


E gosto de falar com os marítimos, que são gente que sabe dos ventos e das marés, de barcos e de todos os peixes que há, desde a vulgar sardinha ao misterioso"peixe que engoliu o chino!. Isto é gente da gente que foi no caíque para o Brasil, é gente que conhece o mar de Larache ou a linha do contrabando, a carreira de Gibraltar e de Marrocos. Outros andaram no bacalhau ou tentaram a sorte nos Estados Unidos:


- Ê cá... pôs ê trabalhi das armações em Massachutâze, um tempe. Mai despôs fui-me a endar ó camarão, lá pró Sul. Pôi ê sô do tempe do sê pai, do Iria, do Aleluia, do "Lit Pit" e do "Songa Monga"... Esses erem ôtreze tempeze, nam se fazia munte, nam é cóme agora. Você nam vei cóme essa gente vem? O Manel Ramireze - o filhe do Mestre Ramireze -, o Jôquim dos begodeze, e ôtreze quê cá tenhe óviste alumiar. Tóm podreze de requêza...


O marítimo tem senso de humor, qualidade que vai sendo rara entre outras gentes. O marítimo tem piada, cultiva a graça:


- Compadre, o sê filhe tá gorde... - o moço, magro como um palito.


- Tá gorde, tá, pró lade do osse..


O homem do mar tem resposta para tudo, se não na ponta da língua às vezes, não nos faz perder pela demora...


Numa tarde de Verão, há alguns anos, estava o "Manelim Corta-machados" lá baxe junto à arrelampa do clube naval, quando chegou uma caravana de automóveis e deles saíu um grupo de "gente fina", vestindo boas roupas de praia e trazendo luxuosa bagagem. No ar, à sua volta, cheirava a loções e a cremes.


A ilha da Armona, até este tempo, não tinha ainda sido descoberta por gente de fora. Quem para lá ía era gente de Olhão, envergando roupa usada, "para não estragar a outra melhor". Por isso o Manelim estava extasiado com tanto luxo, tanto perfuma, tanta beleza. E, quando a sua curiosidade já não podia mais, acercou-se de um industrial de conservas de peixe que estava por ali e perguntou-lhe:


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publicado por igara às 21:34
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