Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2006

O Silêncio das Palavras


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Acabastes de transpor a porta e o silêncio já fere. Nunca, como hoje, a madrugada teve o sarro amargo de um copo vazio. Esvaziei-o e voltei a enchê-lo com o fluido que entorpece os meus receios. Sim! Começo a calar os meus medos de forma artificial: nicotina, cafeína, álcool, anti-depressivos e, não raras vezes, aquelas revistas que nos “instruem” a manter a chama da paixão sempre viva e a garantir ad eternum o amor das nossas vidas. Pelo menos, o amor daquela vida mais premente, a que urge dar resposta antes que termine a próxima época de saldos.

 

Basicamente, sinto-me apreensiva e não atino com os motivos para tamanha apreensão. Rejeito a ideia de que te perdi definitivamente, pelo que, acredito não ser essa a causa do meu desassossego. Empresto um sorriso desbotado aos meus lábios ressequidos pelo ar frio da manhã e dissimulo o incómodo de mais um dia vazio em perspectiva. Duvido que algo inesperado aconteça. Teimo em abandonar o aconchego do leito e aninho-me no limite da minha realidade ficcionada.

 

Desde que galgastes a soleira da porta que o silêncio ensurdecedor do apartamento ressoa nos meus ouvidos. Há dias assim, em que o vácuo nos abocanha por dentro e as vísceras se contraem em espasmos continuados. Sente-se um ardor febril, a cabeça a latejar, a exaurida vertigem a empurrar-nos para um hipnótico redemoinho de cores – o Circo da Vida!

 

O desconforto ganha contornos reais. Assobio em esforço. Recito um poema que assimilei numa fase arrojada da minha vida. Trauteio uma música já gasta. Ironicamente, constato a minha aversão ao tema. Desisto. Abdico de simular o indisfarçável. O silêncio entranhou-se, definitivamente, nas paredes da casa. Pouco mais há a fazer que deixá-lo escorrer pelas divisórias, inundando-as de sombras profícuas aos fantasmas do tempo.

 

O último ruído audível ocorreu antes de atravessares o limiar do hall de entrada e deixares para trás a derradeira melodia daquilo que fomos. E o que fomos? O que somos ainda? O que significaram tantos e tantos momentos de doloroso afecto? Qual o preço a pagar por palavras desmesuradamente excessivas? A redundância de sentimentos será o fim da viagem?

 

Saístes sem pestanejar, madrugada fora. O último som, escutei-o, enquanto a claridade matinal teimava em abrir caminho pelas frestas esfusiantes da janela do quarto. Pareceu-me ouvir-te dizer à distância: “Preciso de paz…É urgente o silêncio das palavras.” Contudo, não tenho a certeza que tivesses proferido o que quer que fosse.

 

Compreendo agora o sentido da blasfémia porque já não te escuto. Na verdade, poucas vezes te escutei na correcta acepção do termo. Ouvia-te mas nunca te escutei. Erro crasso, basilar até para quem absorve as previsões dos horóscopos e crê piamente nos vaticínios ditados por ascendentes pouco auspiciosos. Sempre gostei de beber as minhas próprias palavras e raramente me esforcei para entrar no teu comprimento de onda. Vejo-o agora, nitidamente, como quem vê desfilar na tela as cenas do seu filme favorito no qual, a heroína, é a única personagem com direito a legendagem.

 

As horas sucedem-se desde a toada final. Enrodilhada na roupa da cama não consigo adormecer. O meu estado é o de vigília dormente. Na tentativa de me manter atenta ao mínimo som que ecluda da imensidão do prédio, revisito o passado, uma e outra vez. Estranhamente, a única figura que gesticula na passerelle do pretérito, sou eu. Vejo-te indistintamente sentado no sofá da sala, os olhos espetados no televisor, uma expressão de cansaço latente, o semblante mortiço e carregado e uma paciência infinita na forma como ainda procuras forças para me sorrir.

 

Inauguro o nosso dia de forma ostensivamente rotineira, exigindo atenção, relatando as carências emergentes que me assolam, misturando sentimentos como quem faz um batido de fruta, e no fim, esquece os ingredientes que originaram aquela fusão explosiva.

 

Extenuada, emburrada, desolada, acabo por adormecer.

 

Desperto de um sono fatigante com a sensação de não estar sozinha. Sinto-te perto. O hálito quente e adocicado a aproximar-se da minha face. Estremeço. Recuso abrir os olhos com receio que te esfumes no “silêncio das palavras”. Sinto agora a tua boca, o teu beijo, o teu calor. Sei que estás aqui. Sei que nunca atravessastes a soleira da porta. Sei que podemos recomeçar. Sei que podemos dar sentido a todos os amanhãs, em silêncios bastantes, em palavras excessivas, em amor que não cede a contratempos exíguos. Enfim, regressastes! A sinfonia de sons que ocupa o espaço lírico da minha alma, não deixa lugar a dúvidas…

 

@utora : Essa_Miúda


</blockquote>
publicado por igara às 14:15
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4 comentários:
De Anónimo a 14 de Fevereiro de 2006 às 15:43
Pinochio, há uma coisa (deve haver tantas...) em que já desisti de te igualar! Os teus comentários deixam qualquer pessoa de rastos... És um querido! Beijo grande :)Essa_Miuda
(http://www.sonhadorainata.blogs.sapo.pt)
(mailto:Essa_Miuda72@hotmail.com)


De Anónimo a 14 de Fevereiro de 2006 às 12:31
Fiz mal em ler este teu texto fantástico. Agora quem é que me vai convencer a voltar a pegar na caneta? Depois disto desisto. Nunca te conseguirei igualar. A sério, estou fascinado com o teu trabalho, " pintaste" um quadro de solidão, de silêncio,( ruidoso), de remorsos mas também de esperança, com as cores e as tonalidades adequadas. Quem escreve assim merece acordar e ver que o pesadelo já passou. O dia raiou esplendoroso,e afinal ninguém atravessou a soleira da porta. Um beijo grande e parabéns.Pinochio
(http://guilhermices.blogs.sapo.pt)
(mailto:pinochio@sapo.pt)


De Anónimo a 9 de Fevereiro de 2006 às 16:44
Já tinha tido a felicidade de ler este texto no Blog SOnhadoraInata, da Essa_Miuda, e só posso comentar o que comentei lá, logo após acabar de o ler: emocionou-me... para mim isso arte... provocar emoções ;)
Parabéns Igara, por tanta gente de tanta qualidade responder ao teu repto e partilhar contigo a sua alma na forma da sua escrita
Bjnhs ;)Vlad
(http://naoha3semduas.blogs.sapo.pt)
(mailto:thevlad@sapo.pt)


De Anónimo a 9 de Fevereiro de 2006 às 14:34
Essa, nem sei como deva começar o comentário a este teu texto. Acho que tu e as palavras têm uma sintonia fantástica. Em relação ao texto, há sonhos que de tão reais, nos fazer tremer e acima de tudo pensar. Ainda bem, que nada se esfumou no silêncio das palavras e que tudo não passou apenas de um sonho, apesar de se conseguir sentir de forma clara, o sabor da ausência, e o sentir da perda! Um beijo grande, e mais uma vez, obrigada por participares neste repto. ::)))igara
(http://www.bloguiando.blogs.sapo.pt)
(mailto:igara@sapo.pt)


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