Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2006

SILÊNCIO E SOLIDÃO

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Joana olhou, tristemente, para o relógio. Passavam alguns minutos das 6 horas da tarde o que equivalia a dizer que tinha terminado mais um dia de trabalho. A perspectiva do regresso a casa não se lhe afigurava minimamente atractiva.

 

Estimada pelos colegas de trabalho e pelos superiores, Joana esquece o excesso de trabalho, sente-se feliz no meio deles e as horas que passa na empresa são, para si, as melhores horas do dia. Solta-se, descontrai-se, brinca e sobretudo apetece-lhe rir. São as únicas horas do dia em que consegue rir, e isso é motivo mais que suficiente para se sentir ali bem. Quando o dia caminha para o final deixa-se invadir pela tristeza, a inquietação invade-a e a revolta cresce. Joana é uma mulher infeliz.

 

Casada há vinte anos com um homem que amou intensamente no passado, e que ajudou a subir na vida, esta mulher pagou caro o amor que lhe dedicou, os sacrifícios que fez, as privações que se impôs. Incentivou-o a prosseguir o seu curso de direito que abandonara ao fim do primeiro ano, e abdicou de muita coisa que uma mulher jovem, bonita e recém casada teria todo o direito de usufruir, desde restrições monetárias à própria vida social. De tudo abdicou por amor do homem com que casara, convencida que passados os anos necessários para terminar a licenciatura, ainda estaria a tempo de recuperar o tempo perdido. Sonhava que então tudo iria mudar.

 

Joana acreditava que a sua vida mudaria quando o marido conseguisse finalmente concretizar o seu sonho: exercer advocacia. Acreditava, e tinha razão para acreditar, na realidade as coisas começaram de facto a mudar… mas para pior. A formação cultural e académica que o marido conquistara afastara-o dela. A diferença era notória e ele começou a sentir algum embaraço por isso. Do embaraço à vergonha foi um pequeno passo, da vergonha a indiferença um outro ainda mais curto. A traição chegou logo a seguir.

 

As discussões, as provocações, os vexames., os insultos e a indiferença não demoram muito a chegar. A vida de Joana transformara-se então num verdadeiro inferno. Já não sorriam, não falavam, e já mal se olhavam. A verdade é que já quase não se podiam ver. Eles já não se suportavam. Em seu redor cresceu o silêncio.

 

Joana ao volante do seu Peugeot regressava a casa taciturna e pensativa, com uma disposição idêntica ao do condenado a caminho do cadafalso. Era assim todos os dias. Ao passar junto da Torre de Belém parou o carro e foi sentar-se num banco à beira rio, contemplando as águas calmas que um pouco mais além se lançariam na imensidão do oceano. Desejou ardentemente mergulhar naquelas águas e deixar-se levar para bem longe, ganhando distância daquele inferno em que se transformara a sua vida. Não sabe quanto tempo ali esteve olhando o rio sem o ver, só sabe que quando acordou do seu torpor era já noite fechada. Estremeceu um pouco. Em casa o marido decerto que estranhara já o seu atraso de cerca de três horas, mas sabia que isso não o incomodara minimamente. Aliás estava convencida que ele respiraria de alívio se ela não voltasse nunca mais. E quantas vezes estivera já tentada em fazer-lhe a vontade, mas não seria ainda hoje que isso iria acontecer. Havia de ser um dia, mas não podia ainda saber quando. Um dia!

 

 

Ao entrar em casa perto das 10 horas da noite, viu o marido sentado no sofá lendo tranquilamente um livro. À sua entrada não esboçou a menor reacção, nem levantou a cabeça para olhar para ela. O silêncio foi total. Joana subiu ao quarto e lançou-se sobre a cama deixando que as lágrimas se soltassem abundantemente dos seus bonitos olhos negros e chorou convulsivamente. O silêncio que reinava naquela casa estava longe de ser um silêncio reconfortante, daqueles que nós temos muitas vezes necessidade sentir à nossa volta. Aquele era um silêncio doloroso e desesperante. Um silêncio que dói. O silêncio agressivo da indiferença. O silêncio ruidoso da solidão.

 

@utor: Pinochio
</blockquote>
publicado por igara às 10:25
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