Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2006

Alguém que conheci

Ainda me recordo como se fosse hoje. Parece que o vejo surgir ao longe trazendo às costas o peso de uma vida. Vida cansada, suada, sofrida, porém vivida com toda a força e ânimo que é possível na vida de um pescador.


- Então amigo Zé, como é que correu hoje a faina do mar? Ergueu a cabeça e fixou os olhos no vasto oceano e respondeu resignado:


- Ele há dias...a rede lá me ficou! Vou ter que trabalhar com afinco pois amanhã também é dia e a barriga não espera!- encolheu os ombros e retomou a caminhada em direcção à sua pequena cabana.


- Irei consigo! Mostre-me o que fazer, quem sabe poderei dar-lhe uma mãozinha... Olhou-me nos olhos como se estivesse a achar estranho o meu interesse repentino pelas suas lides, franziu o sobrolho e retorquiu:


- Vem lá comigo, que isto de fazer redes não é arte que se aprenda num dia.


 Chegámos perto da cabana onde existia uma pequena casa de arrumos e de lá de dentro o velho Zé fez surgir um emaranhado de fios de nailon azuis e brancos que por momentos me fizeram desejar nunca me ter oferecido para tal empreitada.


O Ti Zé lá começou enrolando os fios à volta de um pau ovalado, que segundo mais tarde me explicou, tinha sido por ele próprio talhado, em dias de malagueiro quando não podia sair ao mar. Explicou-me que os primeiros nós da rede são como os alicerces de uma casa. Deveriam ser fortes e resistentes de malha fechada por forma aos peixes não darem luta mas suficientemente grandes para o mar não a levar. Depois de dados os primeiros nós ela lá foi tomando forma e o Ti Zé lá me foi ensinando os jeitos de a tecer. Olhava-me de olhos fundos. Aquele olhar que se ganha apenas quando a vida se revela árdua. Imaginei o que pensaria de mim, como é que eu lhe surgia no pensamento. Os meus pensamentos eram entrecortados pelas indicações que ele me ia dando por olhares, ora de concordância, ora de desagrado. Por ali ficamos horas esquecidas pouco falando mas vendo surgir lentamente o ganha pão desse meu inesperado companheiro e professor das artes do mar. No final do dia, agradeceu-me, com um sorriso aberto. Não me agradeceu certamente a ajuda, uma vez que me revelei incapaz de tecer 3 nós seguidos. Penso que me agradeceu a companhia e o esforço. Deixou-me uma concha em sinal de agradecimento. De quando em vez ainda a olho.


Hoje o filho do Ti Zé, perdeu-se no Mar. As redes que tecera, não o largaram...


Hoje, coloquei a concha num fio, vou usá-la em breve, assim que a tristeza der lugar ás memórias doces desta lembrança!

publicado por igara às 14:06
link | favorito
De Anónimo a 17 de Janeiro de 2006 às 15:18
Temia isso mesmo. Lamento sinceramente. Como gostaria que fosse apenas ficção. Como crente que sou rezarei uma oração pelo filho de Ti Zé.
Um beijinho minha amigaPinochiop
(http://guilhermices.blogs.sapo.pt)
(mailto:pinochio@sapo.pt)


Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Abril 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. Mudei-me!!!!!

. Ora bem.....

.

.

.

.

.

.

.

.

.arquivos

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Junho 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds